Competitividade Sadia ou Doentia?

9 de setembro de 2015

CORRIDA(1)O ser humano enfrenta em nossos dias, pressões incríveis para poder sobreviver. Tais dificuldades atingem diversas áreas, como: a família, o lidar com o cônjuge e com os filhos; o trabalho, com a constante ameaça do desemprego; a vida ética e moral, com a imposição para que façamos o que não é correto, entre outras.

Uma das pressões mais comuns, entretanto, é a COMPETITIVIDADE. Não somente nós somos estimulados e “empurrados” por ela, mas até nossos filhos desde pequenos, são preparados nas escolas a enfrentar um mundo cheio de competição.

Para comentar este assunto, vou transcrever parte do artigo de um ex-professor meu (Sergio), da Faculdade Teológica Batista de SP: Dr. Zenon Lotufo Jr., que além de ser pastor, também é médico psiquiatra.

“Desde a aurora da humanidade – lembremos de Caim e Abel – as pessoas competem entre si. Nem as lições que ouviram de Jesus puderam impedir que os discípulos se preocupassem em superar uns aos outros (Mt 19:20-28). Contudo, existem formas saudáveis e formas doentias de competir.

A competição saudável é aquela em que, por exemplo, nos empenhamos para ganhar um jogo qualquer (se não, não haveria graça em jogar) mas em que, ganhando ou perdendo, não há nenhuma consequência mais séria. A alegria pelo triunfo ou o desapontamento pela derrota não duram mais do que um ou dois minutos.

A competição se torna doentia, quando os concorrentes sentem que seu valor pessoal depende de alcançarem êxito ou não. Existem pessoas tão impregnadas dessa crença – de que seu valor depende de seu sucesso em superar outros – que estão sempre a competir: no trabalho, em reuniões sociais, na igreja, em casa, com a mulher e, até mesmo, com os filhos.

Isso tem duas consequências nefastas: primeiro, o humor do indivíduo estará o tempo inteiro oscilando entre a alegria (que alguns chamam de “maligna”) de se sentir superior a alguém e a frustração de se considerar derrotado e inferior; segundo, uma vez que ninguém pode manter um relacionamento de verdadeira intimidade com uma pessoa que está sempre procurando se mostrar superior, o resultado será uma vida afetivamente deserta, ou seja, de grande infelicidade.

A questão é que as qualidades úteis em competições se opõem, ponto por ponto, àquelas que segundo a Bíblia, nos permitem ser felizes. Veja o que diz Jesus sobre isso nas maravilhosas “bem-aventuranças”: o segredo da felicidade está em ser humilde de espírito, manso, misericordioso, limpo de coração (Mt 5:3-11). Nada disso serve para competir, mas serve, e muito, para viver bem na companhia dos outros, para alcançar a vida plena que o Mestre nos veio dar. O mesmo pode ser dito de outra relação de virtudes, a que Paulo registra em Gl 5:22-23, chamando-as de “fruto do Espírito”: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança.

É triste ver como, desde muito cedo e cada dia mais, os pais se preocupam com o sucesso competitivo dos filhos e procuram incutir-lhes as qualidades próprias para isso, em lugar de buscar desenvolver neles as virtudes que realmente tornam uma vida digna de ser vivida.

Por trás da valorização da atitude competitiva e das qualidades que a favorecem como força, esperteza, ambição, autoritarismo, cresce um poder que vai se tornando totalitário, o do “mundo dos negócios”. Cada vez mais, todas as manifestações humanas vão sendo dominadas pela ótica desse “mundo”, a ótica do mercado. Não é simples força de expressão o que disse conhecido filósofo: a religião que mais cresce no mundo, em nossos dias, é o “monoteísmo de mercado”.

Até algum tempo atrás, eram vários os fatores que concorriam para que uma pessoa se sentisse valorizada, ou seja, para que tivesse uma boa autoestima (que é o alicerce da saúde mental). Assim, ela podia não estar bem na área profissional, mas compensar isso por se sentir realizado em outras esferas: familiar, social, comunitária, esportiva, da igreja, etc. O trabalho era apenas uma das colunas que sustentavam sua sensação de dignidade. Contudo, a cada dia que passa, o universo do trabalho e seus critérios se torna mais abrangente e exclusivo em determinar o valor das pessoas e de suas atividades.

O mundo do trabalho é o mundo da competição, e de uma competição que parece não conhecer limites. É aí que as pessoas competitivas se sentem em seu próprio ambiente, que são recompensadas por seus esforços para se sobressair, para sobrepujar os demais. Mas esse homem que se vê como um grande sucesso no exercício da profissão, é o mesmo que só terá fracassos em sua vida afetiva. Ao tentar utilizar em casa ou com os amigos os mesmos instrumentos que lhe permitem sair-se bem no trabalho, vai obter só conflito e distanciamento afetivo.

Igualmente grave – se não mais – é ver a atitude competitiva invadir igrejas através de membros e de líderes. Aquele que deveria ser um ambiente de harmonia, de testemunho do amor incondicional do Pai, torna-se então, campo de jogos de poder e de disputas movidas por vaidades.

Pois bem, que pode fazer o cristão consciente, que se vê prejudicado por ter de trabalhar em ambientes altamente competitivos? A resposta não é fácil e depende, até certo ponto, das peculiaridades de cada caso; eis, de uma forma geral, o que recomendo: “Se você não pode se afastar desse tipo de ambiente, tenha sempre em mente que o mundo do trabalho está cada vez mais enlouquecido. Se não perceber isso, corre o risco de você endoidecer. ”

Se o leitor acha que exagero, cito apenas o caso do homem que me contava estar se esforçando para acompanhar seu diretor, que dormia apenas 4 ou 5 horas por noite e, portanto, tinha mais tempo para se dedicar ao trabalho. Ou então daquele jovem casal, cujo casamento eu mesmo oficiara. Amavam-se, mas se sentiam infelizes na vida conjugal. Devido ao empenho de ambos em progredir em suas respectivas carreiras, raramente se viam durante a semana; parte porque quase todos os dias trabalhavam algumas horas além do expediente, parte porque faziam cursos de especialização algumas noites por semana. O mais triste é que estavam dispostos a tudo, menos a rever suas prioridades de vida. São casos que se vão tornado tão corriqueiros, que nem nos damos bem conta do quanto representam de verdadeira insanidade.

Em todas as épocas, um dos grandes desafios dos cristãos tem sido o de estar no mundo, mas não se deixar amoldar por ele; de evitar que, como sal, se torne insípido. Neste caso, o desafio é manter a sensatez e os valores espirituais, em meio às pressões de um ambiente em que se perdeu de vista o que realmente dá sentido à existência”.

 “(…) ofereçam-se como sacrifício vivo santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e prefeita vontade de Deus. (…) Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas ao contrário tenha um conceito equilibrado (…).”  (Rm 12:1-3).
Dr. Zenon Lotufo Jr. – pastor, escritor, professor e médico psiquiatra

 

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